quarta-feira, 12 de maio de 2010

Minha Meta, Minha Metade, Minha Seta, Minha Saudade, Minha Diva, Meu Divã, Minha Manha, Meu Amanhã

Chove em Lisboa


Chove em Lisboa
Será só em Lisboa?

Há nuvens por toda parte
novembro partiu
e o parto da chuva
lançou-me a água sobre a face
fácil
faz-se a foz
do céu cinzento
(choverá em Lisboa?)

O chiado das ruas
(dos pneus pisando a água sobre as ruas)
acusa:
chove em Lisboa

O balé de guarda-chuvas
capas
sobretudo
em meus olhos
me mostram que
a chuva cai
cai dentro de Lisboa

Na esquina da alma
no canto dos olhos
na tela da mente chove
chove
chuva incessante
chuva insidiosa
chuva
chuva que invade
a página do livro
à espera
de seu próximo leitor
em Lisboa
(onde chove
desde que novembro partiu)

Mais atento
o olhar
está a perceber
que a molhar
prefere a chuva
deitar suas águas
a sagrar as margens
do mar e do Tejo
prefere a chuva
salgar as margens
da mesma página
do livro inerte
que agora
leio

De repente
tudo fica claro
(menos o céu de Lisboa)
não é a chuva
a salgar as margens
da mesma página
do livro inerte
mas eu
seu último leitor
entregue à lembrança
do rosto amado
longe da rua molhada
(pisoteada pelos pneus
paralelos)
mas eu
último reduto de umidade
neste deserto
que agora leva o nome de Lisboa


Antônio Umberto de Souza Jr.

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